Fortuna crítica
Prolegômenos à cruz que se inverteu (*)
NILO HENRIQUE NEVES DOS REIS
Darlan Zurc é um moço de muitas virtudes e pouquíssimos defeitos. Esse rapaz pode ser entendido como um ser de muitas faces, porém em todas podemos visualizar retidão de caráter. Depois de algum tempo convivendo com suas idéias posso dizer que o “darlanismo” pode ser entendido como um estilo artístico ou, pelo menos, era dessa forma, que eu entendia seu processo de cognição intelectiva. No entanto, as dificuldades do cotidiano arrastaram nosso jovem projeto de cérebro para a rotina das obrigações trabalhistas e, desse modo, perdemos, pelo menos, até agora, um profissional na vida acadêmica.
Para mim, é muito difícil defini-lo em suas singularidades, por exemplo, sua capacidade em perder seus ideais com tão púbere idade… Suas acusações perderam o sentido? Não! Elas nunca tiveram uma real dimensão da realidade que a vida em sociedade exige: respeito ao outro. Além disso, o respeito ao outro se torna muito mais maduro quando não se gosta do outro, pois, dessa maneira, o respeito se transforma em princípio. Mas o garoto não entendia aquilo e, talvez, agora possa entender, embora duvide muito da afirmação que faço.
Não obstante, torna-se tema obrigatório no estudo do darlanismo sua inversão capital, ou seja, deixar de ser cruz para se tornar zurc. Merecia! Mas os entalhes da madeira mostraram sua natureza antes mesmo dos obstáculos. Uma outra coisa: os hormônios parecem aflorar na pele do rapaz e minhas digressões sobre prazer e respeito ao sexo e, em especial, a parceira não ganharam coro. Aliás, o zurc assumiu diversas fases em sua graduação e, em especial, sua transformação de Zurc em um “Zé Goiaba”! Darlan nas ruas de Guarulhos perdeu todo brilho inventivo que disseminava na Uefs…
Visto a amplitude do problema: a perda de originalidade, Darlan deixou a vida para subsistir no submundo de um operariado. Tal idéia deveria agonizar a alma desse imberbe, mas nem sequer isso passa no coração desse adolescente…
Eu pensava em construir uma carta para esse mancebo, mas a Cruz retornou a sua posição original e, por conseguinte, devo protelar minha redação!
Até a cruz se inverter novamente.
São Paulo (SP), dezembro de 2006.
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(*) Resposta ao artigo “A pior dádiva de um Nilo”, de Darlan Zurc.
Nilo Henrique Neves dos Reis é professor de Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Bahia, e doutorando pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.
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