Fortuna crítica
Prazer, eu não me chamo Jasão ou
Uma tragédia prêt-à-porter engarrafada pela Coca-Cola ou
Inutilia truncat (*)
JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO
Mais um acontecimento especial trouxe-me a esta página: o meu artigo “Miserere nobis”, publicado neste presente veículo no dia 21 de novembro do corrente ano, foi lido e analisado por uma personagem de Eurípedes. Mas o que realmente é especial é que um acontecimento “nada especial” tenha deslocado uma personagem de uma tragédia grega para as páginas de um jornal do interior baiano, o que se deu no dia 6 de dezembro de 2002, sob o título “Prazer e conhecimento”, também nesta Folha do Estado da Bahia.
Pela conclusão a que “Meddeia” (em tempo, é o nome da personagem…) chegou do artigo, só posso concluir que o leu ao mesmo tempo em que armava um sinistro plano contra Jasão, do qual saíram vítimas seus filhos, além de Clauce, sua noiva, filha do rei Creonte, que morre carbonizada pela coroa incandescente com que ela, “Meddeia”, lhe havia ardilosamente presenteado. Convenhamos que fazer leitura de algo, mesmo que seja da revista da Mônica, numa situação dessas, em nada favorece a concentração.
Só a breve existência dessa trágica personagem, que passou a viver em função de se vingar do pai de seus filhos — além de ter de conciliar com a elaboração de sua tese de mestrado em Artes e, a posteriori, da do doutorado em Letras — poderia fazê-la crer que chamar um texto de “pífio” é elogio ou como ela disse: uma defesa “a ferro e fogo” do “indefensável”. O mais intrigante ainda — e que me leva acreditar que a breve existência dessa feiticeira seja de 1 minuto — é a confusão estrutural que vai da 16a. à 22a. linha. A infanticida diz que tentei “a ferro e fogo defender o indefensável — o texto medíocre de um professor emérito”. O tal texto é justamente o qual classifiquei no meu artigo de “pífio”. Acontece que, linhas adiante, ela afirma que “o argumento usado era de que Darlan precisava ler de novo o tal livro Parlendas”. Ou seja, se formos interpretar essa afirmação, eu, este comum mortal, consegui superar os poderes da neta do Sol ao usar um livro bom como argumento favorável ao artigo ruim. Eu não poderia desentrelaçar-me de tal confusão sem antes dar-lhe o benefício da dúvida, já que, possivelmente, a bruxa cólquida-sertaneja tenha descuidado na articulação de seu argumento, causando assim essa confusão dos diabos. Ademais, não posso compreender como é possível distrair “a atenção do leitor acerca do tema discutido” ao mesmo tempo em que lhe chamo atenção justamente sobre esse tema, ou seja, a figura pública do nosso despido mestre. É preciso um grau de hipocondria maior que o meu para ter enxergado tal maquiavelismo.
O que me deixa cada vez mais convencido da nossa breve existência e da ainda mais breve existência de “Meddeia”, neta do Sol, repito, e filha de Lucas da Feira com Lampião, é o ato de confundir a natureza das percepções, como se fosse possível dedicar a um poste ou a uma bicicleta, cujas existências, formas e funções são facilmente constatáveis, a mesma concentração necessária para a leitura de uma obra literária da qual valores adicionais e possibilidades são descobertos pela leitura constante. É muito pós-modernismo para a cabeça de um leitor de verdade, em nome do prazer e do conhecimento, ler Dostoiévski com a mesma efemeridade de quem toma uma cerveja.
Para finalizar essa peroração helênica, há no artigo greco-feirense um momento tocante: “Meddeia” desce do carro do Sol (muito parecido com o nosso proclamado carro-de-boi), no qual pretendeu partir para o exílio em Pé de Serra após ter executado sua vingança, para sair em defesa dos leitores, aos quais, segundo ela, ofendi com a minha petulância ao pôr um título latino, de cujo significado eles necessariamente ignoram. E ainda, a reboque, com esse título, ela sustenta que feri o coração do meu amigo e colega Darlan Zurc com a minha suposta desonestidade. A imensa bondade dessa personagem em fuga do autor impediu-a de perceber que subestimar o conhecimento do leitor e sua capacidade de pesquisa, aí sim, é uma ofensa e uma petulância, velada por uma outra ainda maior, a pena. Quanto ao meu amigo e colega Darlan Zurc, se após várias tentativas — e desafiando a nossa breve existência — finalmente localizar sua ferida cardíaca, que se sinta à vontade para tirar satisfações e desafiar-me para um duelo ao pôr-do-sol. Sugiro-lhe, inclusive, em reprimenda ao meu tão desonesto título latino, um outro em grego. Que Deus nos proteja das Fúrias cheias de horror. Amém.
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(*) “Elimine coisas inúteis”.
Jessé de Almeida Primo é estudante de Letras com Inglês da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Bahia.
Publicado no jornal Folha do Estado da Bahia, Feira de Santana (BA), 22-1-2003.
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