Fortuna crítica
Melancia is over (*)
JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO
Li o teu conto [“Aprendendo a jogar”] e devo dizer-te que o teu ofício é mesmo o ensaio. Não quero dizer com isso que fazes feio. Pelo contrário, mesmo num gênero a que não foste convocado, não deixas de escrever com fluidez, com segurança, enfim com aquela elegância que é a tua marca e a qual me deixa com uma certa inveja.
Vamos a alguns pontos que me chamaram a atenção: lendo-o tive a impressão de estar diante de um libelo contra [o povoado ou distrito do município baiano de Nova Soure, chamado] Melancia, (…) da qual sentes falta do mesmo modo que o Tom sente saudades de Jerry. Isso é apenas um detalhe que reflete algo maior: o texto é demasiadamente auto-referencial, e só tu mesmo que, num dos momentos mais fodidos, a imprecar contra os falsos amigos e, na melhor das hipóteses, a desejar que passem pela experiência de morar em Melancia, pegaria um livro de Auguste Comte como entorpecente sonífero. Não estou a dizer que tu sejas o único a ler o papa do positivismo, mas no teu pretenso conto isso soa um tanto artificial, o que me lembra a tentativa de Paulo Francis em tentar ficcionalizar o que só poderia ser por ele dito ou em forma de ensaio, ou artigo, ou crônica, a resultar assim naquele chumbo literário que é o Cabeça de negro.
Isso tudo é fruto de um determinado temperamento teu: tu não tens gosto pela Literatura, o que é refletido no fato de que nela o que realmente te interessa são as especulações filosóficas e históricas, de modo que em tua pequena narrativa esses elementos, aos quais acrescento as especulações psicológicas, sobrepõem-se à imaginação e é justamente por isso que as personagens são tão estáticas quanto a paisagem: um sujeito parado em algum canto a imprecar mentalmente contra a tia, contra um pai autoritário, contra os amigos interesseiros e contra a gostosona aproveitadora e que chega ao final nessa mesma situação. E, assim, o teu conto é tão claustrofóbico quanto o povoado de onde ardente, desesperada, aflita, sofregadamente… tentaras e finalmente conseguiras sair. Só quem morou em Melancia e ficou ameaçado de permanecer justamente quando mostrou a intenção de ir a uma metrópole poderia escrever isso.
Agora, é de se perguntar: isso te torna menor no mundo da expressão escrita? Eu penso que não, mas as pessoas devem levar adiante aquilo a que foram convidadas a fazer. Eu já conversei contigo sobre o assunto: não acredito que a pessoa escolha ser poeta ou escolha ser qualquer coisa cujas condições de realização dependam da eleição das Musas, inclusive se eu tenho inveja da tua escrita, dos sermões do Pe. Vieira, das análises crítico-literárias de José Guilherme Merquior, dos Sertões de Euclides da Cunha e de outros mais é porque suas realizações, por maiores que sejam, estão dentro do meu campo de possibilidade de expressão, logo não posso invejar poetas, romancistas, contistas ou outros que atuam em variados campos da Literatura, pelo simples fato de meu impedimento para essa forma de expressão ser ontológico: repito, só invejo o que posso realizar.
Muito embora eu tenha as minhas preferências, as quais recaem sobre a poesia por exemplo, não permito que isso me deixe insensível a outras formas de expressão, não permito que isso me feche os olhos ao fato de que tu mostras grandeza nas tuas crônicas da mesma forma que os grandes poetas impressionam enormemente em suas poesias. O movimento de alma que falta ao teu conto é o que tem de sobra em teus textos com os quais tanto eu como outras pessoas estamos acostumados. Mas, como nem tudo são espinhos, não pude deixar de perceber uma passagem que é, no mínimo, brilhante: “Tia Nena, com cerca de quarenta e sete anos, se anulou quando resolveu brincar de ser o que a hipocrisia social é. TIA NENA PENSOU TANTO EM SI, PROCUROU ENVOLVER-SE COM OS MAIS PRÓXIMOS DA FORMA MAIS FUGAZ POSSÍVEL QUE IMBECILIZOU SUA PRÓPRIA NATUREZA” (o destaque em maiúsculo é meu). Mesmo nessa passagem, creio que a expressividade filosófica se sobrepõe à tua repentina ambição literária, por isso te peço que não te identifiques nos próximos textos como contista, pois as Musas castigam os intrusos.
O que acabei de escrever pode parecer contraditório com relação ao que disse sobre a tua fluidez. Apesar de tudo isso, esta permanece, mas convenhamos que há modalidades ou mesmo outras maneiras de se escrever algo confessional sem necessariamente entregar o ouro ao bandido, e tenho a certeza de que hás de encontrá-las, porque na Literatura e, para prejuízo dela, tu te revelaste mais do que pretendias.
Feira de Santana (BA), 25 de novembro de 2003.
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(*) “Melancia está acabado”.
Jessé de Almeida Primo é estudante de Letras com Inglês da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Bahia.
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