Fortuna crítica
Da areia viestes à areia voltarás: uma crítica
ao conto “É melhor ser vidro?”, de Darlan Zurc
RÚBIO ROCHA DE SOUZA
“Duas taças são apalpadas com firmeza por um garçom habilidoso”: eis o primeiro período verbal com que o autor abre a seu conto. Isso, claro, sugere a entrada em cena de dois personagens. As duas taças, aparentemente, são meros objetos que ajudam a caracterizar o ambiente.
Usando períodos curtos e sem recorrer às usuais e inteligentes intertextualidades que marcam seu estilo, o autor faz uma reflexão sobre a condição humana. Porém, reveste sua análise com certa sutileza, afastando-a, portanto, de qualquer dramaticidade existencialista.
Do balcão, as taças passam a uma mesa onde se encontram duas pessoas. Então, um senhor idoso e sua neta criança passam a tomar, respectivamente, vinho e suco de pêssego. A neta, cheia de vida e, provavelmente, com um longo futuro pela frente, toma logo seu suco. Ao contrário, o avô, após sentir o aroma do vinho, imerge em seu passado. Só depois de sentir por algum tempo o sabor agridoce da nostalgia, o avô pega sua taça e ingere metade do vinho. Esse mergulho no passado adormecido a partir do olfato lembra tanto a memória involuntária defendida por Proust em sua portentosa obra Em busca do tempo perdido, como a memória involuntária bem poetizada por Fernando Pessoa em Livro do desassossego:
O olfato é um vista estranha. Evoca paisagens sentimentais por um desenhar súbito do subconsciente. Tenho sentido isto muitas vezes. Passo numa rua. Não vejo nada, ou, antes, olhando tudo, vejo como toda a gente vê. Sei que vou por uma rua e não sei que ela existe com lados feitos de casas diferentes e construídas por gente humana. Passo numa rua. De uma padaria sai um cheiro a pão que nauseia por doce no cheiro dele: e a minha infância ergue-se de determinado bairro distante, e outra padaria me surge daquele reino das fadas que é tudo que se nos morreu. Passo numa rua. Cheira de repente às frutas do tabuleiro inclinado da loja estreita; e a minha breve vida de campo, não sei já quando nem onde, tem árvores ao fim e sossego no meu coração, indiscutivelmente menino.
Contudo, ao contrário do que imaginamos no início da leitura, as duas taças de vinho são as personagens centrais do conto. Tanto é que, além de estarem presentes no desenvolvimento, fazem-se presentes também no início e no final do texto. De meros objetos inanimados, as taças passam a seres personificados, dotados de memória, sensibilidade e insensibilidade. Então, avançam para além dos limites da denotação e se transpõem para o terreno da alegoria.
Num certo sentido, o grande personagem mesmo do texto é o tempo. O tempo que tudo transforma, que flui e esmaga tudo com sua força titânica. O avô e a neta, respectivamente, bebem seu vinho e suco e deixam as taças vazias, assim como o tempo sorve os dias e a vida de cada pessoa.
O conto aponta, por conseguinte, para o inevitável destino humano: a morte. Sutilmente, o tema é esboçado logo no primeiro parágrafo: “Os restos de frutas frescas e maduras estão prontos para seguir um dos ciclos inevitáveis da vida: virar adubo de ruminações de vacas”. Depois, esse tema, embora à sombra da sutileza, reaparece um pouco mais à frente nos contrastes que são formados: “homem idoso, com paletó novo, chapéu bem tratado […]”; “Na frente dele […], encontra-se a neta, balançando os pés do alto da cadeira e contendo uma energia abundante”.
A reflexão sobre o tempo e a inexorabilidade do destino humano constrói-se a partir da relação contrastante entre os personagens humanos — idoso e criança —, bem como a partir da relação simbólica que há entre os personagens humanos e os personagens inanimados, as taças. Por isso, entendo que o autor acertou ao não nomear os personagens humanos, que estão representando a humanidade.
Mas o modo como o autor tece sua reflexão sobre esse tema é feito de uma forma bem leve e com certa dose de humor, diferentemente do que ocorre na lírica crônica intitulada “O poder do tempo”, de Ketsia Bittencourt (*), e em muitas obras literárias do século XX, onde a reflexão sobre o tempo e a morte se recobre de drama e angústia. No entanto, em um determinado momento, o contista empresta às suas palavras um pouco do tom cinzento da filosofia existencialista: “Como tem pressa o tempo e como é inescapável a fatalidade dos seres humanos”. Isso, claro, vai ao encontro, por exemplo, do pensamento do escritor Dino Buzzati, que, em sua obra O deserto dos tártaros, escreveu:
O tempo entretanto corria, marcando cada vez mais precipitadamente a vida com sua batida silenciosa, não se pode parar um segundo sequer, nem mesmo para olhar para trás. “Pare, pare!”, se desejaria gritar, mas vê-se que é inútil. Tudo se esvai, os homens, as estações, as nuvens; e não adianta agarrar-se às pedras, resistir no topo de algum escolho, os dedos cansados se abrem, os braços se afrouxam, inertes, acaba-se arrastado pelo rio, que parece lento, mas não pára nunca.
De fato, o tempo não interrompe a sua apressada marcha. Mas a consciência disso, no conto de Zurc, conflita com a ingenuidade da criança. O personagem idoso ainda possui a sua razão equilibrada e a personagem criança não possui ainda a maturidade para refletir sobre a condição humana, sobre a passagem do tempo. É o inverso do que ocorre na já citada obra O deserto dos tártaros, quando o personagem central, Drogo, ainda jovem, reflete sobre isso, enquanto sua mãe, já bem idosa, possuindo a razão já esmaecida, encontra-se já fora do terreno da angústia existencialista:
Antigamente seus passos chegavam-lhe no sono como um chamado. Todos os demais ruídos da noite, ainda que muito mais fortes, não eram suficientes para acordá-la, nem os carros rua abaixo, nem o choro de uma criança, nem os latidos dos cães, nem as corujas, nem a persiana batendo, nem o vento pelos beirais, nem a chuva ou o estalo dos móveis. Somente o passo dele a acordava, não porque fosse barulhento (Giovanni, aliás, andava na ponta dos pés). Sem nenhuma razão especial, apenas porque ele era seu filho. Mas agora não acontecia mais nada disso. Agora ele havia cumprimentado a mãe como antigamente, com a mesma inflexão de voz, certo de que com o ruído familiar de seus passos ela acordaria. Pelo contrário, ninguém lhe respondera, além do rodar da longínqua carruagem. ‘Uma besteira’, pensou, ‘uma ridícula coincidência, poderia mesmo acontecer’. No entanto, restava-lhe, enquanto se dispunha a deitar-se na cama, uma impressão amarga, como se o afeto de outrora tivesse sido embaciado, como se entre ambos o tempo e a distância tivessem lentamente estendido um véu de separação.
Importa observar, ainda, o tempo em que a história foi ambientada. Não há nenhuma marcação cronológica clara, mas há alguns detalhes que nos fazem concluir que a história se passa há décadas atrás de nosso tempo presente, a segunda década do século XXI. Vamos aos detalhes: no terceiro parágrafo, o autor descreve o personagem adulto como um homem idoso que traja paletó, chapéu e usa no bolso um lenço, o que nos leva a uma época em que os hábitos referentes a vestuário eram bem diversos dos nossos; no último parágrafo, o autor escreve que a garrafa de água mineral pedida pelo personagem idoso era de vidro; já no penúltimo parágrafo, o contista escreve que, preso à janela acortinada do bar, havia um cartaz que anunciava mais um feito cinematográfico de Alain Delon. Este detalhe, claro, nos faz inferir que o tempo em que a história se passa situa-se entre as décadas de 60 e 80 do século passado, pois foi durante tal período que o referido ator francês esteve no auge.
Mas de que modo isso assume alguma relevância no texto literário em análise? Bom, como se sabe, Alain Delon é um dos atores do cinema que mais arrancou os suspiros do público feminino por sua beleza física. Atualmente, esse ator está próximo de fazer 82 anos de idade, muito raramente, aparece em público e está completamente diferente do que era quando jovem. Logo, não poderei crer que a presença do mencionado cartaz no texto tenha sido gratuita, pois coloca em confronto o pano de fundo cronológico em que a história se passa e o tempo em que a história foi escrita, o tempo em que Alain Delon era jovem e galã e o tempo em que o mesmo é velho e já não mais galã.
Agora, porém, detenhamo-nos um pouco no título do conto que é formado pela seguinte indagação: “É melhor ser vidro?”. Mais ou menos no meio do texto literário aqui analisado, o autor, referindo-se às taças, escreve: “Melhor serem vidro, presume-se, que viverem ordinariamente como areia, de onde é comum vir o vidro”. Na conclusão do conto, que é muito boa, lemos: “O avô e a neta seguem, só que a garrafinha d’água, apesar de ser também de vidro, encontrará apenas o lixo como o resultado do seu esvaziamento. Sendo assim, é melhor mesmo ser vidro do que areia ou resto de frutas? Aquelas duas taças continuam destemidas e superiores a qualquer dúvida desse tipo ou a qualquer sentimento”. Com isso, Zurc conduziu a sua reflexão para o campo sociológico: o tempo e a morte são completamente indiferentes a classes sociais, pois tanto pobres como ricos, por mais que estes se sintam superiores e com a consciência anestesiada, tombarão diante de sua força arrasadora.
Mas fiquemos no campo filosófico. Como há uma estreita relação entre as taças e os personagens humanos, cabe-nos fazer a seguinte pergunta: “É melhor ser vidro ou ser um ser humano?”. Essa pergunta, claro, nos remete a vários autores. Schopenhauer, em seu texto Do sofrimento do mundo, defende que a condição humana é mais precária do que a dos irracionais, já que a consciência potencializa nosso sofrimento. Fernando Pessoa, por sua vez, com a mão do heterônimo Alberto Caeiro, escreveu: “Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois / Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada, / E que para de onde veio volta depois / Quase à noitinha pela mesma estrada. / Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas … / A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco… / Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas / E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco”. Clarice Lispector, indo também na esteira do pensamento do filósofo alemão, escreveu:
Eu que sou doente da condição humana. Eu me revolto: não quero mais ser gente. Quem? quem tem misericórdia de nós que sabemos sobre a vida e a morte quando um animal que eu profundamente invejo — é inconsciente de sua condição? Quem tem piedade de nós? Somos uns abandonados? uns entregues ao desespero? Não, tem que haver um consolo possível. Juro: tem que haver. Eu não tenho é coragem de dizer a verdade que nós sabemos. Há palavras proibidas. Mas eu denuncio. Denuncio nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer […].
A morte, realmente, provoca no ser humano um horror alucinante. E a inexorabilidade de nosso destino humano foi tratada pelo contista de uma maneira muito inteligente e, salvo em alguns momentos, de uma maneira também muito sutil. Sabemos que, dentre os componentes do vidro, encontra-se a areia. Então, nada melhor do que a escolha do autor para as personagens principais ter repousado sobre as duas taças. No livro de Gênesis do Velho Testamento, encontramos a seguinte sentença: “Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás” (3:19). Portanto, as taças, a bem da verdade, metaforizam a precariedade da condição humana. Se a imaginação é um abismo, o tempo e a morte são um precipício sem fundo.
Vitória da Conquista (BA), 15 de setembro de 2017.
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(*) Texto literário que figura na coletânea intitulada A imaginação é um abismo, da qual o texto de Zurc também faz parte. Essa coletânea foi publicada em 2016 pela editora Carapaça.
Rúbio Rocha de Souza é formado em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), em Ilhéus (BA).
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