Fortuna crítica

As Musas depois do café da manhã

RÚBIO ROCHA DE SOUZA

 

Uma coisa é a vontade e outra a razão. Li a crítica de Jessé Primo [“Melancia is over”] sobre um conto de Darlan Zurc, “Aprendendo a jogar”. Achei-a inteligente e até divertida, apesar de não acolhê-la. E confesso que tive uma enorme vontade de me juntar a seu autor para, juntos, torcermos o pescoço do tal do Darlan. A sorte desse rapazinho é que, por eu ser meio masoquista (por isso é que leio, às vezes, Paulo Coelho), optei pela razão. Traduzindo em termos matemáticos: o infeliz do Darlan Zurc tem uma caneta-navalha sanguinária! Isto é, já fez críticas intragáveis a alguns de meus textos. Logo, está atravessado em minha garganta. Entretanto, a voz da razão soa aos meus ouvidos como um mavioso canto de sereia. Que Darlan torça para que o encanto perdure até o término deste texto.

Voltando à mencionada crítica: após lê-la, vi-me na necessidade de fazer uma “segunda” leitura tanto do supracitado conto como da mesma [crítica]. E, a despeito de ter gostado de alguns dos pontos de vista de Jessé, não consegui, não obstante o esforço que fiz, comungar com sua opinião geral acerca do conto em questão.

Genericamente falando, a meu ver, Jessé não o analisou do ponto de vista puramente literário; procurou, antes, “desmerecê-lo” argüindo que há elos muito fortes que ligam o autor ao personagem Fred, além de alegar pobreza de imaginação e de julgar o conto um terreno inadequado para as especulações que Darlan faz.

Esse, que de bobo não tem nada, escreveu outro artigo (“Enquanto as Musas dormem”) — valendo-se dos condimentos mais picantes de seu tempero: ironia e cinismo ora sutis ora causticantes — na tentativa (bem-sucedida, a meu ver) de demolir, cuspir e tripudiar à exaustão sobre os argumentos de seu oponente. Eu, por minha vez, sentindo comichão em meus punhos, resolvi entrar também no ringue.

A princípio, pretendia apenas desempenhar o papel de juiz. Mas, como disse, senti comichão em meus punhos. E isso me levará, inevitavelmente, a desferir também alguns socos. E, como a crítica de Jessé não encontrou em meu crivo agasalho satisfatório, usarei as luvas de Darlan quando de meus golpes.

Conforme Jessé, no conto de Darlan, sobressaem-se especulações filosóficas e psicológicas, em detrimento da imaginação. Ora, isso, de modo algum, torna um conto (um romance ou, enfim, qualquer obra literária) literariamente pobre. Sem dúvida que, em tal conto, sobressaem-se, sim, tais especulações. Contudo, de maneira alguma, isso o diminui. Se assim o fosse, o que dizer, por exemplo, de Os irmãos Karamazov e de A metamorfose (coitado do caixeiro-viajante Gregor Samsa, preso naquele quarto, sem poder passear!)? Naquela obra de Dostoiévski, o enredo é simples, a narrativa é pouco imaginativa. Mas, onde, afinal, está a grandiosidade do romance? Está, justamente, nas discussões e perquirições que o autor levanta, especulações essas: filosóficas, sociológicas, religiosas e, sobretudo, psicológicas. Na obra de Kafka, também, o enredo é simples e pouco imaginativo (salvo a originalidade de um homem acordar metamorfoseado em um inseto). Nela, salta aos olhos a reflexão filosófica que o autor faz sobre a condição humana.

O que dizer ainda sobre os contos de Clarice Lispector? E acerca de O estrangeiro, de Camus, o que falar? O que enriquece essa obra é a imaginação do autor ou o teor filosófico? Assim, se fôssemos nos circunscrever ao estereótipo criado por Jessé, deveríamos, também, qualificar tais obras como ruins. Embora sem tencionar criar paralelos, o que Jessé fez é como se Max Brod (melhor amigo de Kafka), depois de ler A metamorfose, dissesse para seu amigo: “Sua novela deixa muito a desejar, pois é altamente auto-referencial; o personagem Gregor é, na verdade, você, Franz”. Isso anularia o valor literário dessa novela?

Analisando a questão pelo extremo oposto — o da imaginação —, sabemos que há livros que revelam uma riqueza imaginativa muito grande, mas que, apesar disso, não passam de indigestos caroços de abacate, como O guarani, de José de Alencar (que descanse eternamente em paz, com os pássaros gorjeando sobre sua tumba!!!), e Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, por exemplo.

Assim, quando Jessé alega que a má qualidade do conto reside justamente na auto-referencialidade associada à parca imaginação, incorre, certamente, em um erro. Concordo no que pertine ao teor autobiográfico do conto, mas discordo, é claro, de que esse teor seja uma das coisas que o tornam ruim. Inclusive, antes de tomar conhecimento de sua crítica, eu já havia falado para Darlan, por telefone, da dita auto-referencialidade. E posso dizer, ainda, que, em parte, sou conhecedor da intimidade de Darlan. Por tal razão, da mesma forma que Jessé, percebi que tal conto era muito autobiográfico. Mas, procurei me desnudar de meu conhecimento sobre a vida do autor, para, a partir de então, poder fazer uma leitura sadia, por assim dizer. Sinceramente, gostei muito do conto, de sua profundidade, de suas sondagens psicológicas, de sua inquietação em lançar luz em um abismo escuro. Logo, considero a maioria das críticas de Jessé infundadas.

Por exemplo: quando ele vê artificialidade no fato do personagem Fred ler Auguste Comte, o faz porque está totalmente imbuído de seu conhecimento sobre a vida do autor. E isso, por certo, eivou sua análise sobre o conto. Em outras palavras, Jessé se esquece de que os demais leitores, ao fazerem a leitura do conto, estão isentos de qualquer conhecimento biográfico sobre Darlan, e, por isso, não têm como vincular o personagem central a um lugarejozinho (no caso, Melancia).

Quanto a bater o martelo e dizer se Darlan foi ou não convocado para a Literatura, sinceramente, acho cedo para se dizer algo a esse respeito. Darlan escreveu apenas um conto. Conto esse, por sinal, de boa qualidade, na minha opinião. É claro que tal qualidade não chega a ser um louvor das Musas, mas é, pelo menos, um sussurro. Por outro lado, mesmo admitindo que o conto não tivesse qualidade literária alguma, não poderia dizer que as Musas não querem cortejá-lo. Há escritores, como George Orwell, por exemplo, que entraram no santuário da Literatura tropeçando, mas que, depois, se reergueram e colheram muitos louros da crítica.

Face aos raciocínios discorridos, ouso dizer que um bom texto literário não consiste nos passeios dos personagens nem em sua inércia, se esses são maratonistas ou tetraplégicos. Reside, sim, no projeto a que se propôs o escritor — o fez ou não com maestria? Camus, em O estrangeiro, não se preocupa com a imaginação, seu objetivo é discutir a condição humana. Kafka, também, ao escrever a imortal A metamorfose, objetiva discutir a condição do homem nesse mundo, as relações familiares e sociais, o relacionamento do ser humano com o mundo em que vive. O antipático Darlan, por sua vez, conseguiu, com propriedade, alcançar seu objetivo, visto que conseguiu descobrir a riqueza de um mundo pobre, achar profundidade em um lago aparentemente raso, transpor a superfície medíocre dos relacionamentos sociais.

Enfim, no meu modo de ver, Jessé não conseguiu atingir Darlan com golpes fortes. O que conseguiu apenas foi morder sua orelha, como fez Tyson em Hollifield. Isso me poderia até, como juiz (falso juiz, é claro) que sou, dar a luta por encerrada e decretar o nocaute técnico, contra Jessé. Mas, não quero que a luta termine. Que venham outros rounds! Só não quero que [seja] sobre mim, até porque deu para sacar que ambos têm braços muito pesados. Para finalizar, quero dizer que adorei toda essa polêmica entre os dois referidos pugilistas, até porque dei também meus socos. Torço, porém, para que Jessé não leia isso, uma vez que, como já disse, tem o braço muito pesado e meu rosto é muito bonito para ser machucado. Que os socos continuem! Quanto a mim, talvez por não ter tanto fôlego (é falsa modéstia?), retiro-me do ringue, e irei passear com as Musas pelo bosque, ver árvores, bichinhos selvagens e quem sabe não encontro até uma fonte onde eu possa contemplar meu belo rosto?

 

Ilhéus (BA), janeiro de 2004.

 

Rúbio Rocha de Souza é estudante do curso de Letras da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), em Ilhéus (BA).

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